Janine Amos
Que efeitos tem a anorexia no corpo&mente de Kim?
Everest Editora, 2004
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O que é a anorexia?
Um dia, depois das aulas, Clara encontra Kim.
— Mal te vejo! — queixa-se. — Estás sempre muito ocupada. Olha que somos amigas!
— Arranja outra amiga — diz Kim. Vira as costas à amiga e vai para casa. Ela treme sob o sol da Primavera. Ultimamente está sempre com frio.
— Não vens ao treino de ténis? — pergunta Clara, seguindo-a.
— Saí da equipa — responde Kim. — A professora disse que não havia problema.
Clara está preocupada com a amiga. Põe o braço sobre os ombros de Kim.
— Kim, emagreceste muito! — exclama, chocada com a magreza de Kim. — A tua mãe sabe que não almoças?
— Estou GORDA e não tens nada a ver com isso! — grita Kim e começa a chorar.
Afasta-se e Clara fica a olhar para ela.
O distúrbio alimentar que Kim está a desenvolver chama-se anorexia nervosa. As pessoas com esta doença comem tão pouco que se vão matando literalmente à fome. Por vezes, provocam vómitos depois de comer. Perder peso é a única coisa que sentem que controlam.
Com o distúrbio alimentar, muitas coisas vão mudando na sua pessoa e, em especial, na sua mente. Kim tornou-se selectiva com a comida. Só come certos alimentos, geralmente numa determinada ordem. Ela está muito abaixo do seu peso, mas a mente diz-lhe que está gorda.
O seu corpo sofre outras alterações. Uma substância química, chamada adrenalina, produzida pelos rins, chega ao cérebro de Kim tornando-a muito activa e fazendo-a sentir-se enérgica e poderosa. É quase como tomar uma droga. Quanto mais tempo passa fome, mais precisa de o fazer para obter essa mesma sensação. Como não come o suficiente, a digestão de Kim tornou-se mais lenta. Sofre de prisão de ventre, sente a barriga dura e inchada.
Sem a gordura suficiente para manter a temperatura do corpo, Kim sente frio. O cérebro tem mais dificuldade em concentrar-se: torna-se difícil ler, manter uma conversa ou até dormir. A doença fá-la sentir-se triste e só. O seu único objectivo é perder peso.
Exercício
Em vez de jogar ténis com os outros, Kim vai correr sozinha.
Corre todas as tardes depois das aulas. Primeiro pesa-se na balança da casa de banho; depois dá cinco voltas ao parque. De regresso a casa, volta a pesar-se antes de fazer abdominais. Faz flexões até se sentir exausta.
“Toca a queima calorias, Kim”, sussurra.
Tem dores no corpo, mas o cérebro parece flutuar. Kim vê-se ao espelho uma e outra vez.
— Estás tão gorda! — diz, soluçando.
Kim inventa todo o tipo de desculpas para não comer com a família. Mas hoje os pais insistem para que ela se sente com eles à mesa.
— Hoje comemos todos juntos, não há desculpas! — diz o pai. — Ultimamente mal te vemos, Kim. O que é que se passa?
— E estás a ficar muito magra — diz a mãe de Kim, olhando para ela.
“Deixem-me em paz!”, pensa Kim.
A comida parece não passar na garganta de Kim. Corta-a em pedaços minúsculos e passeia-os pelo prato. Entra em pânico: não pode comer mais.
— Comi muito ao almoço. Estou cheia — diz ela, afastando o prato.
Mais tarde, no quarto, Kim dá vinte saltos. Depois, pesa-se mais antes de se ir deitar.
Queimar energia
O exercício faz parte do esforço para perder peso. Mexendo os músculos, estes queimam mais energia. Quando Kim corre, os músculos utilizam no mínimo vinte vezes mais energia do que é habitual, queimando os hidratos de carbono e a gordura armazenada. Os saltos queimam muito mais.
Também acontecem outras coisas. À medida que aumenta a duração e a intensidade do exercício, certas substâncias químicas chamadas endorfinas (analgésicos naturais do corpo) passam para a corrente sanguínea. As endorfinas atenuam as dores musculares e permitem-lhe exercitar-se durante mais tempo; também lhe dão uma sensação de bem-estar, aliada a uma poderosa sensação de controlo do corpo que o exercício lhe proporciona. O exercício intenso dá-lhe uma tal quantidade de sensações agradáveis, que ela quer fazer mais e mais.
Definhando
No dia do casamento de Angela está uma manhã primaveril.
A casa fervilha de actividade e está cheia de pessoas e flores. Carol está na cozinha, a falar com os tios de Kim. No quarto, Angela, nervosa, conversa com Kim enquanto ela se veste. Angela pára a meio de uma frase e fica a olhar para ela.
— Kim — sussurra, — o vestido fica-te a nadar!
Nesse momento, Carol entra no quarto e diz, preocupada:
— Kim! Como é que emagreceste tanto?
Kim fica envergonhada, mas satisfeita consigo mesma. Séria, a mãe diz-lhe:
— A primeira coisa que vou fazer na segunda-feira é marcar-te uma consulta.
— Porquê? — grita Kim. — Não estou doente. Tu estás sempre a fazer dieta, mas eu não consigo fazer nada bem, não é? Nunca sou suficientemente boa.
Kim sai do quarto a chorar.
— Vê se a levas ao médico — diz o tio, preocupado. Não queremos que ela morra à fome.
Danos a longo prazo
Kim sente-se bem com o excesso de exercício; além disso, como come pouco, tem um aumento de adrenalina. Estas duas situações dão-lhe uma poderosa sensação de controlo. Se continuar assim, ver-se-á presa num ciclo de fome-exercício-e mais fome, e poderá não ser capaz de parar. A sua condição física e psicológica impedi-la-ão.
A falta de alimento durante algum tempo é um risco grave para a saúde. A fome altera os níveis hormonais. Nas raparigas, faz com que os seios parem de crescer e os períodos menstruais sejam interrompidos ou desapareçam. Também os rapazes deixarão de crescer e de se desenvolver, até que a alimentação melhore.
A fome pode conduzir a um estado em que os ossos se tornam finos e se partem facilmente. Muitas pessoas que sofreram de anorexia padecem de problemas ósseos. Sem uma dose adequada de vitaminas e sais minerais, os rins deixam de funcionar.
Se o corpo humano não receber comida suficiente, começa a definhar: entre outras coisas, queima a proteína dos músculos, e o coração é um músculo. As pessoas com anorexia correm o risco de enfraquecer o coração e podem até morrer com um ataque cardíaco.
Estou bem!
Na 2ª feira, a professora pede a Kim que não saia da sala.
Ela fecha a porta.
— A Clara veio falar comigo — diz a professora. — Está muito preocupada contigo. Disse-me que não estás a comer devidamente.
Kim fica furiosa: era suposto que Clara fosse sua amiga.
— Estou bem — diz a Kim, olhando para a professora.
— Emagreceste muito — continua a professora. — Eu também estou preocupada. Acho que devias ir ao médico.
— A minha mãe marcou-me uma consulta — responde Kim, desviando o olhar.
— Passa-se alguma coisa? Posso ajudar? — insiste a professora. De repente, Kim sente vontade de conversar. Diz à professora que este ano acha a matemática difícil.
Conta-lhe que um rapaz lhe chamou gorducha. Diz-lhe o que pensa da gordura. |
— Estou tão assustada — murmura Kim.
— A tua família e amigos gostam de ti como és, Kim, não pelas notas que tens ou pela tua magreza. Posso ajudar-te com a matemática, mas o mundo não acaba por errares de vez em quando — diz a professora, calmamente. Kim abana a cabeça.
Agora, promete que vais ao médico, está bem?
Kim diz que sim.
Crescimento
A professora de Kim diz-lhe que ela está bem como é. Para alguns jovens, a tensão do crescimento é muito grande. Podem perder a confiança em si próprios, como acontece com Kim, e começam a pensar que a única coisa que controlam é aquilo que comem. Então, avaliam-se com base na quantidade que comem ou no peso que perderam.
Kim tem de aprender que as pessoas gostam dela por ser quem é, por dentro. Também tem de aprender a gostar de si própria.
Se a confiança em ti próprio for baixa, podes melhorar a tua auto-estima. Não te esqueças que ninguém é bom em tudo; experimenta algo novo. O desporto é uma excelente forma de te relacionares com outras pessoas, mantendo-te saudável. Podes tentar a dança, o teatro ou um trabalho durante as férias. Consulta o jornal da tua zona, a biblioteca ou a Internet, para te pores a par de iniciativas na tua freguesia ou concelho.
Se estás preocupado, fala com alguém: com os teus pais, com um professor ou com outro adulto em quem confies.
Os jovens sofrem muitas pressões. Começam a sentir que são adultos, mas os pais continuam a tratá-los como crianças. Para além disto, é a pressão da escola nova, dos exames e, mais tarde, da escolha do curso. Não será pois de espantar que, por vezes, os jovens se sintam assustados e confusos.
Quando estás a crescer, podes achar o teu corpo desproporcionado e esquisito. Isso é normal. É necessário algum tempo para o corpo adquirir a sua constituição definitiva. Podes ajudar, comendo bem e fazendo exercício.
Segue: