A fuga ou a luta

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A fuga ou a luta

Face a uma agressão, o indivíduo reage segundo dois tipos de comportamentos reflexos: a fuga ou a luta. Estes instintos de protecção foram herdados dos nossos antepassados, que precisavam de combater para sobreviver, para se protegerem dos predadores, para atacar tribos inimigas.

Os tempos hoje são outros, mas os reflexos do organismo são os mesmos. Guilherme reagiu através da fuga, sem ripostar face aos seus agressores. Como não respondeu de uma forma que lhe pareceu adequada, fica insatisfeito consigo próprio. Tanto pode deprimir como assumir um comportamento introvertido.

Guilherme foi obrigado a vivenciar uma experiência que não escolheu ter. Daí que as suas reacções também sejam imprevisíveis. Ao medo, ao pânico, e às lágrimas sucede-se uma revolta que pode conduzi-lo a acessos de agressividade e ao desejo de se vingar. Quer reviver o acontecimento, trocando de lugar: passar de passivo a activo, de cobarde a forte e temerário.

Este exemplo mostra bem o quanto a violência do outro nos assusta, porque nos esmaga, nos aniquila. No espaço de um instante, deixamos de existir, submetidos que somos à vontade do outro. É isto que nos torna vulneráveis, impotentes, indefesos. A agressão faz-nos recuar até ao berço, quando éramos frágeis e estávamos totalmente dependentes dos nossos pais e do mundo exterior. Mas a violência do outro acorda também a nossa própria violência. Quando refazemos a cena, colocando-nos no lugar do vencedor, gastamos energia a mostrar a nossa força, a nossa coragem, quiçá o nosso sadismo… Como a raiva nos parece legítima, abandonamo-nos a ela. Até que ponto podemos ir, do que seremos capazes?

É assim que a violência atrai a violência. Felizmente, muitas pessoas tentam desmontar este mecanismo e reflectir sobre a violência de que foram vítimas. Procuram sair do traumatismo, reconstruir a sua vida. A violência de que fomos alvo pode conduzir a um questionamento de nós mesmos e da nossa vida.

Compreender o traumatismo

Ao choque imediato e à perplexidade do stress, pode seguir-se um mal-estar difuso, que pode acabar em traumatismo. Depois de uma agressão, podemos conservar sequelas visíveis, tais como hematomas, mas podemos também conservar fragilidades e ferimentos invisíveis: a mente pode ficar ferida, sem que nos apercebamos exactamente de como e onde. Os efeitos de uma agressão podem manifestar-se muito tempo depois de ela ter ocorrido, às vezes meses, ou até anos. O corpo pode ter ficado intacto, enquanto a mente ficou afectada. Nem todas as feridas são visíveis, nem todas se descobrem ao mesmo tempo. Os indivíduos reagem aos acontecimentos com a sua subjectividade, o seu passado, os seus sofrimentos, os seus medos.

No momento da agressão, a vítima pode ficar sem voz e sem reacção, mas interiorizar um tal pânico que este ressurge passado muito tempo, sob formas diversas. Estas formas podem assumir somatizações, ou seja, manifestações físicas de um mal-estar psíquico: dores de cabeça, dores de barriga, vertigens, insónias, comportamentos estranhos, medos novos… Tudo isto são sinais de um traumatismo. Já todos conhecemos pessoas que ficavam doentes depois de um período de depressão ou de preocupações no trabalho. Como se o organismo devesse, a dado momento, pagar a factura do stress acumulado.

A cena da agressão joga-se em dois tempos: o tempo dos acontecimentos e o tempo da memória. Os acontecimentos vividos ficam inscritos no corpo e na mente, e podem, em seguida, ser reactivados numa qualquer ocasião, devido ao facto de não terem sido “digeridos”. Quem tiver forma de exprimir o seu sofrimento face a uma agressão, de a associar à sua própria história de vida, poderá virar a página. Sofreu, mas pode recompor-se com os momentos bons que a vida agora lhe traz.

Em contrapartida, a vítima que obstinadamente silencia o que se passou, que se obriga a esquecer o ataque a todo o custo, dado que a recordação é demasiado dolorosa, arrisca-se a soterrar a agressão no mais profundo de si mesma, como um veneno que funcionará ao retardador. Um dia, uma qualquer situação análoga, ou mesmo um incidente banal, despoletarão o regresso de todas as emoções recalcadas.

Segue:

  • A violência das palavras: os insultos
  • Violência familiar – violência psicológica
  • Violência física
  • Violências sexuais
  • O que fazer quando sou vítima de uma violação?
  • A repetição das violências sofridas não é uma fatalidade
  • Violência escolar: violências das palavras e dos golpes
  • Outras formas de perseguição / Conclusão

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