A violência das palavras: os insultos

Maryse Vaillant; Christine Laounénan
Quand les violences vous touchent
Paris, Éditions de la Martinière SA, 2004
Texto traduzido e adaptado

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  • Quando as violências nos atingem
  • A fuga ou a luta
  • A violência das palavras: os insultos

    Naquele dia, tinha uma consulta num médico que uma amiga me recomendara. Queria, contrariamente à vontade da minha mãe, começar a tomar a pílula. Ao caminhar pelo passeio, pensava no que iria dizer ao médico e no facto de ter de tirar a roupa para que ele me examinasse, quando dois adolescentes me interpelaram.
    ─ Olha-me para esta! Tem cara de galo! ─ exclamou um dos rapazes, apontando-me o dedo.
    Senti logo as pernas a tremer. Precisei de toda a minha coragem para não faltar à consulta.

    Carolina, 16 anos

    A violência mais visível é a que agride fisicamente, a que atinge o corpo. Mas a violência pode também exprimir-se de forma subterrânea: trata-se da violência psicológica das palavras, dos insultos, das chacotas que nos atingem de maneira cruel, e que podem provocar feridas igualmente graves, mesmo que invisíveis.

    Nos recreios, toda a gente dá livre curso aos insultos: “cretino”, “vaca”, “palhaço”, “texugo”, “pareces uma foca”. Os que atingem os mais fracos com estas ofensas dizem que não é grave, que não passa de um jogo. Mas nem todos se divertem com esta brincadeira.

    O que foi insultado cala-se porque foi atingido num ponto sensível e sente-se humilhado. Por que razão as palavras podem doer tanto? A fim de compreendermos isto, pensemos numa versão caricatural da realidade: um nariz desproporcionado, um pescoço demasiado alto, um queixo metido para dentro… Para que certos traços sobressaiam, o resto da cara tem de ficar na sombra. O mesmo se passa com o insulto: basta uma palavra para apontar um traço físico, moral, ou familiar, e deformá-lo, conferindo-lhe assim uma importância capital.

    Aquele que recebe o insulto vê-se reduzido a um único aspecto de si mesmo. Durante a adolescência, estes episódios são particularmente dolorosos, visto que ainda não temos uma imagem consolidada de nós mesmos e achamos que o que os outros dizem de nós é verdade. Sentimo-nos ridículos, asquerosos, desinteressantes…

    Se nunca tivemos problemas de peso, se nunca precisámos de fazer dietas-milagre, o facto de nos chamarem “grande vaca” no corredor da escola não nos preocupará em demasia. Olharemos com surpresa e ironia quem nos chamar “elefante”. Pensaremos “Que bicho lhe mordeu?” Se uma pessoa utiliza um insulto relacionado com o peso é porque isso representa um problema para ela. O que insulta sofre como o insultado, mas ignora que sofre. É um facto que os agressores podem ser magros como um palito ou nem sequer usar óculos; contudo, as questões do peso e da vista preocupam-nos, porque as utilizam como arma de arremesso. A pessoa que agride não consegue controlar a raiva que a submerge e usa as palavras para se aliviar. É caso para dizer “Quem o diz é que o é!”

    Segue:

  • Violência familiar – violência psicológica
  • Violência física
  • Violências sexuais
  • O que fazer quando sou vítima de uma violação?
  • A repetição das violências sofridas não é uma fatalidade
  • Violência escolar: violências das palavras e dos golpes
  • Outras formas de perseguição / Conclusão

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