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Os diferentes tipos de violência escolar: violências das palavras e dos golpes
No ano passado, havia na minha turma um rapaz pobre. Todos os alunos da turma o maltratavam, incluindo eu. Todos troçavam dele e punham-lhe as alcunhas mais maldosas. Juntava-me aos outros, porque não queria que me fizessem o mesmo.
Jaime, 17 anos
A escola não é o único lugar onde as violências se desenrolam. Mas, mesmo que o nosso quotidiano não seja marcado por questões graves, podem existir tensões (insultos, rixas, humilhações, discussões) ou agressões disfarçadas (chantagem, estragos de material), que não devemos descurar.
Como acontece com outros tipos de vida em comunidade, a escola obriga-nos a conviver com pessoas que não escolheríamos necessariamente como amigos. As tensões que daí advêm traduzem-se por insultos ou por rixas. Dar uma sapatada em alguém por brincadeira, para explicar um ponto de vista ou para mostrar quem manda, apalpar o traseiro a uma rapariga para a fazer corar, são práticas correntes nas escolas. Quem não se diverte com estes gestos considerados inofensivos, tanto mais que fazem rir toda a gente?
É um facto que estes actos violentos não deixam marcas nem cicatrizes físicas, mas fazem a vítima sofrer. A pessoa sente-se humilhada, ferida. O mesmo acontece com as palavras. Quando nos chamam “palhaço” ou “escarro”, sentimo-nos extremamente rebaixados.
A violência é subjectiva. Se alguns de nós se defendem com golpes, cuspidelas ou insultos, outros calam-se e isolam-se. Por vezes, o derrotado só concebe uma forma de restabelecer os seus direitos: a vingança. Contudo, a vingança é inútil e perigosa. Se fomos alvo de violência, o mais importante é recusarmo-nos a ser vítimas. É preciso mostrar que não aceitamos ser tratados dessa maneira e arranjar ajuda.
Não devemos hesitar em confiar num adulto da escola ou num outro colega. Em alguns estabelecimentos de ensino, existem alunos que receberam formação para actuar como mediadores em caso de conflitos. O seu papel não consiste em censurar ou castigar, mas em pacificar os espíritos e criar uma atmosfera de verdadeira entreajuda e solidariedade.
A chantagem: quebrar a lei do silêncio
“Ou me dás o teu blusão ou estás tramado!”, “ Passa para cá o teu exercício de Matemática ou dou uma sova no teu irmão!”, “Empresta-me cem euros!” são exemplos de chantagem. A chantagem é um exemplo de violência que os poderes públicos já denunciam neste momento, mesmo que as suas vítimas sejam uma minoria de alunos.
Quando somos vítimas de chantagem, sofremos imenso sempre que temos de dar ao agressor uma caneta, um Walkman, jogos de vídeo, até mesmo dinheiro, não vá ele bater-nos. O chantagista impõe a sua lei aos mais novos e mais tímidos. Nem sequer precisa de ser violento para alcançar os seus intuitos. Basta que nos intimide, que nos meta medo, e que não cesse de pressionar. É assim que alguns de nós começam por dar a caneta e acabam a vasculhar o porta-moedas dos pais para satisfazer as necessidades cada vez maiores do agressor. Este sabe que nos tem à sua mercê, graças ao nosso silêncio.
Com efeito, por medo da reacção dos adultos, das represálias do agressor, ou por receio de que a situação piore, a maior parte das vezes calamo-nos, o que só aumenta o nosso medo e o nosso isolamento. Também temos medo de sermos considerados “delatores” pelos outros alunos.
E a lei do silêncio instala-se aos poucos, o que só beneficia o agressor. Algumas chantagens duram semanas, meses, até mesmo anos, e podem ultrapassar os muros da escola. A chantagem é uma violência vivida na maior solidão, e pode levar-nos a faltar a certas aulas, a deixar de ir à escola, e até a roubar.
Há casos, felizmente raros, em que a vitima é levada a suicidar-se, a única forma de fugir à tortura diária que o chantagista lhe inflige. O medo dá lugar ao terror e isso provoca um desequilíbrio profundo. A vítima pensa que não existe ninguém que possa ajudá-la a sair daquele tormento. O cobarde não é a pessoa que dá o seu blusão ou o maço de cigarros, mas o agressor que se rodeia de escroques para atacar os que são mais fracos do que ele.
Se formos vítimas de chantagem, não é por cedermos à vontade do agressor que nos desembaraçamos dele, muito pelo contrário! Também não devemos tentar defender-nos sozinhos, porque os agressores podem tornar-se violentos. A primeira coisa a fazer é falar do problema para parar a engrenagem na qual estamos metidos. Os nossos colegas podem compreender-nos e ajudar-nos. Se lhes acontecesse o mesmo, eles mesmos ficariam aliviados por poderem contar connosco.
Ao pedir ajuda, ao quebrar a lei do silêncio, damos provas de coragem. Temos de dizer aos nossos pais que não estamos bem, que precisamos da ajuda deles. Também podemos ir falar com um responsável na escola.