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Violência física

19 Set

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  • Quando as violências nos atingem
  • A fuga ou a luta
  • A violência das palavras: os insultos
  • Violência familiar – violência psicológica
  • Golpes e sevícias

    Quando eu tinha 14 anos, os meus pais já não duvidavam de que eu saía com as minhas amigas. Então, fechavam-me em casa. A minha mãe ouvia as minhas conversas ao telefone, o meu pai lia as minhas cartas. A minha mãe inspeccionava a minha roupa interior, o meu pai vasculhava a minha pasta. Levei muito tempo até compreender que isto não era normal, que nem todos os pais faziam a mesma coisa. Quando tinha 17 anos, quis sair uma noite e tentei escapulir-me pela janela do quarto. Quando regressei, esperavam-me. O meu pai bateu-me na cara. Partiu-me o nariz.

    Lia, 25 anos

    Cólera, altercações, gritos, bofetadas, ou castigos: uma certa agressividade está sempre presente na vida das famílias, como o está em todos os grupos humanos. Mas a verdadeira violência exercida pelos pais entra num domínio diferente.

    Trata-se de maus-tratos, que deixam marcas no corpo (hematomas, queimaduras, fracturas), e no coração; feridas secretas provocadas por brigas constantes, humilhações, abandono… Durante muito tempo, a violência física fazia parte do exercício do poder paternal, ou parental, e era vista como uma forma legítima de “endireitar” os filhos, de inculcar-lhes bons modos. As famílias podiam fechar os filhos no armário, bater-lhe com o cinto.

    Hoje, os maus-tratos são puníveis por lei. Só em 1967 se abordou abertamente, em França, o sindroma da criança espancada, ou sindroma de Silverman, o americano que o descreveu pela primeira vez em 1953. Trata-se de uma série de sintomas que podem ser observados nas crianças maltratadas, ou que foram “apenas” mal cuidadas e mal alimentadas.

    Estas vítimas sofrem fracturas múltiplas que foram negligenciadas, hematomas, traços de queimaduras, cabelos arrancados. Estas crianças estão embrutecidas, não sabem rir nem chorar, perderam o apetite. Segundo as estatísticas, e contrariamente às ideias mais comuns, os maus-tratos de crianças, incluindo os abusos sexuais, são exercidos, na maior parte dos casos, por alguém da família, ou por alguém que lhes é próximo. É raro que a agressão seja feita por alguém de fora. Também contrariamente às ideias habituais, os pais que batem, abusam, ou negligenciam os filhos, pertencem a todas as classes sociais.

    Alguns pais pensam que, ao serem autoritários (poucos reconhecem que são violentos), estão a transmitir aos filhos a noção dos limites e um enquadramento necessário à sua educação. Isto é totalmente ilusório. Com efeito, aquele que exerce violência sobre os filhos transgride, ultrapassa os limites, desqualifica-se a seus olhos e aos olhos dos filhos. Em vez de educar, alguns pais procuram subjugar os filhos, obrigá-los a obedecer. Alguns dizem que ao bater nos filhos estão a ajudá-los, a educá-los correctamente, porque os filhos estão cheios de vícios ou são “duros”. Estes pais embarcaram numa espiral de violência diabólica, porque já não conseguem dominar a sua força física ou a sua raiva interior. Estes adultos confundem autoridade com violência, esquecendo que, quanto mais violentos são, menos autoridade têm.

    Por seu lado, a criança que está habituada a ser maltratada pode acabar por banalizar a violência e reproduzi-la sobre outrem quando for adulta. Assim se transmitem, de geração em geração, as violências familiares. Felizmente, há crianças que escaparam a este destino e que, uma vez adultas, conseguem ter uma vida familiar gratificante.

    Até aos meus 5 anos, fui maltratado pela minha mãe. Atirava-me pelas escadas do prédio abaixo, amarrado a uma cadeira. Não queria nunca que eu me sentasse no chão. Nunca imaginei ser capaz de ultrapassar tudo o que me aconteceu e ter uma família. Hoje tenho dois filhos e tenciono dar-lhes todo o amor que não recebi na minha infância.

    Daniel, 30 anos

    Segue:

  • Violências sexuais
  • O que fazer quando sou vítima de uma violação?
  • A repetição das violências sofridas não é uma fatalidade
  • Violência escolar: violências das palavras e dos golpes
  • Outras formas de perseguição / Conclusão
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