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Violências sexuais
Começou quando eu tinha dez anos. Vinha de noite ter comigo e eu nada podia fazer; ficava paralisada. O meu corpo ficava duro como pedra e o medo furava-me o estômago, como se fosse uma picareta. Durante o dia, ele não me olhava e eu não olhava para nada. Na escola, criticavam-me por estar sempre alheada de tudo à minha volta. Ainda hoje, tenho dores de estômago.
Luísa, 16 anos
Em qualquer idade se pode ser vítima de violência sexual, nomeadamente na adolescência. Pela altura da puberdade, o corpo altera-se, e pode provocar desejo nos adultos, aquelas pessoas que deveriam, justamente, olhar pelo desenvolvimento sadio dos adolescentes.
É um drama autêntico observar a alteração do olhar de um pai, de um padrasto, de uma pessoa próxima da família. O amigo encantador ou o vizinho prestável, que nos dá explicações e nos acolhe, tornam-se um perigo, uma ameaça. Não acreditamos no que nos está a acontecer e, em vez de duvidar do outro, duvidamos de nós mesmos. Quando as nossas formas de adolescentes provocam o desejo dos adultos e o seu toque, tudo se desmorona em nosso redor. Temos vergonha do nosso corpo, dos nossos afectos, perdemos a confiança. Crescer torna-se fonte de sofrimento. Os sinais da nossa feminilidade ou da nossa virilidade horrorizam-nos. Apanhados na armadilha das relações familiares ou amigas dos adultos, achamos que devemos calar-nos. Envergonhados por tudo o que nos fizeram passar, achamos que ninguém acreditará em nós. A palavra de um adulto tem muito mais peso do que a nossa. Não sabemos o que pensar, nem em quem nos apoiar.
Durante muito tempo, as crianças abusadas sempre guardaram silêncio. Guardaram para si a vergonha e o desgosto. Felizmente que as mentalidade começaram a mudar, e que os adultos compreendem que devem acreditar nos jovens. Muitas vezes, é só na adolescência que os jovens falam do que lhes aconteceu na infância, em matéria de abusos sexuais. Depois de meses e de anos de um silêncio “culpado”, os jovens sentem a necessidade imperativa de denunciar aquilo de foram vítimas, para poderem conceder-se o direito de existir.
Os maus-tratos sexuais atingem aquilo que de mais precioso existe em nós: a vontade de viver, a intimidade do nosso corpo, a nossa liberdade para desejar e amar. Seja qual for a idade em que fomos vítimas do desejo sexual de um adulto, sentimo-nos sempre culpados e sujos por termos despertado o desejo do outro.
Em vez do amor e da ternura, que temos direito a esperar dos seres que nos são queridos, só encontramos desejo sexual. Além de nos acharmos culpados, passamos a considerar-nos como um objecto sexual. Isto é uma agressão, uma violência: o nosso amor causa-nos vergonha e medo. Perdemos todas as referências. Às vezes, o adulto agressor diz-nos que a culpa é nossa, porque o “provocamos”. Sentimo-nos tão envergonhados que não somos capazes de dizer nem de fazer nada. Não podemos falar aos outros do que nos está a acontecer, nem podemos apresentar queixa. Protegemos muitas vezes os nossos próprios agressores, já que o segredo que guardamos é inconfessável. Dependentes afectivamente das pessoas que nos fazem sofrer, sentimo-nos aterrorizados e culpados dos abusos de que somos alvo. Precisamos de tempo para nos desembaraçarmos deste sentimento penoso de culpa e denunciar o nosso sofrimento.
Ir mais longe
As violências sexuais caracterizam todas as relações físicas que alguém impõe a outrem através da força, da ameaça, da coacção, ou da surpresa:
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A violação é um acto sexual que envolve penetração (anal, vaginal, oral), e que é imposta a outrem (homem ou mulher), através da violência, da coacção, da ameaça, ou da surpresa. Em França, a violação é um crime julgado em tribunal e punível com 15 anos de prisão. Esta pena pode ir até aos 20 anos, se a vítima da violação tiver menos de 15 anos e se houver circunstâncias agravantes (se envolve mutilação ou doença, se for cometido por mais do que uma pessoa, se for cometido sob a ameaça de uma arma). No que diz respeito a vítimas menores de idade, o julgamento desenrola-se à porta fechada.
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O incesto é uma prática sexual exercida entre parentes próximos. Enquanto infracção, não existe no direito francês, que apenas reconhece a violação, a agressão ou o atentado sexual. Trata-se de crimes ou delitos agravados, quando são cometidos sobre menores de 15 anos por um ascendente: pais, padrasto, tutor, avô, tio, entre outros.
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O atentado sexual consiste no toque exercido por uma adulto, sem que haja violência nem coacção, sobre um menor de menos de 15 anos. Este delito é punível com 5 anos de cadeia. A pena pode ir até 10 anos, se o delito foi cometido por um ascendente, por uma pessoa que tenha autoridade sobre o menor (pessoa que habita a mesma casa, parentes próximos, tutores), ou por várias pessoas, quando acompanhado pelo pagamento de uma soma, ou quando o menor entrou em contacto com o agressor através de uma rede de telecomunicações.
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A agressão sexual é um atentado sexual cometido com violência ou sob ameaça. É passível de 5 anos de prisão. Quando é cometida sobre um menor de menos de 15 anos de idade, por um ascendente ou pessoa com autoridade sobre o menor, a pena é de 10 anos de cadeia.
Paula chegou a casa muito pálida. Quando a mãe a pressionou a falar, apenas disse “ Não quero ir mais às aulas de piano.” A mãe não insistiu. Nessa noite, Paula foi falar com o pai, com quem se dava muito bem. Entre algumas palavras gaguejadas, entrecortadas por suspiros, Paula confessou que o professor lhe apalpava os seios e se esfregava nela durante as aulas. O pai mandou-a calar e chamou-lhe “tarada”.
Paula nunca mais falou desse episódio. Dez anos mais tarde, disse à psicóloga que o seu universo de adolescente se tinha desmoronado nesse mesmo dia. “ Quando o professor me fazia aquilo, só me apetecia fugir. Mas quando o meu pai não acreditou em mim, tudo se tornou negro na minha vida. Foi como se todos os adultos se comportassem comigo de forma obscena. Não conseguia continuar a viver.”Este é o drama de muitas crianças e adolescentes confiados a educadores ou a padres. Os pais não querem pôr em causa as estruturas educativas e morais nas quais acreditam. Preferem duvidar dos filhos, em vez de verem as suas referências afundarem-se.
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