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O Complexo do Principezinho – A negação da morte

Jacques-Antoine Malarewicz
O Complexo do Principezinho
Lisboa, Estrela Polar, 2007

(excertos adaptados)

Acima de tudo, Jovem!

 

Como qualquer outra, a nossa sociedade constrói-se a cada momento a partir, e à volta, de certos valores, que têm um carácter de evidência tal que não parecem poder, nem mesmo dever, ser postos em causa. Insensivelmente, e no espaço de uma geração, da década de 1970 aos nossos dias, a juventude transformou-se no valor central à volta do qual a nossa sociedade de consumo se constrói e desenvolve.

Esta necessidade de promover a juventude manifesta-se não apenas no discurso político mas também na vontade de satisfazer novas expectativas. A esperança de vida não cessa de aumentar nos países mais ricos, a necessidade de filiação faz com que a procriação seja cada vez mais artificial e a morte tende a desaparecer da nossa paisagem mental. De curativa, a medicina acabou por se transformar em preventiva, adaptou-se a todas estas novas solicitações.

E, sobretudo, mudou profundamente a nossa relação com o tempo e com a sua duração. Temos, agora, tendência a fundirmo-nos intimamente ao instante, ao presente imediato. Isso permite libertarmo-nos dos danos da idade. Reencontramos, frequentemente, esta cultura do imediatismo nos períodos de guerra onde a incerteza do amanhã dá um novo sabor ao quotidiano. É, aliás, possível que estejamos em guerra contra os nossos medos.

 

A negação da morte

 

A glorificação da juventude faz-se «naturalmente» na negação e ignorância do envelhecimento e da morte. Vivemos assim numa sociedade que tem cada vez mais tendência a negar a morte e a apagar as suas manifestações mais aparentes. Morrer transformou-se em objecto de escândalo. Os rituais que acompanham o desaparecimento de uma pessoa têm tendência a apagar-se ou, pelo menos, a perder o essencial do valor simbólico e emocional que antes tinham. Estes rituais têm tendência a tornarem-se cada vez mais breves e confidenciais. Já não há furgões mortuários nas ruas, os cortejos funerários desfilam geralmente ao ritmo da circulação rodoviária afogados no anonimato das auto-estradas e dos grandes eixos.

As crianças são elas próprias protegidas da realidade da morte e só a percebem através de uma experiência essencialmente virtual. A nossa existência, essencialmente urbana, já não as põe em contacto com o sofrimento e o desaparecimento de animais, como podia ser o caso num mundo rural. A morte de um cão ou de um gato, a ida para o matadouro de uma vaca ou de um cavalo assumiam, noutros tempos, um sentido imediato, eram acontecimentos que continham, manifestamente, um valor de aprendizagem.

Actualmente, as crianças recebem imagens de cadáveres via televisão ou cinema, mas esses mortos são constantemente banalizados, «virtualizados» e, sobretudo, são cadáveres que vêm de longe[1]. Na maioria das situações, é a violência que prevalece. Isso faz com que a criança sinta dificuldade em imaginar outras circunstâncias que provoquem a morte. Ela só pode ser o resultado de uma acção brutal, num contexto de lutas, de guerras ou de terrorismo. Os cadáveres de que as crianças se podem aperceber através dos media não lhes são explicados já que os próprios adultos acabam por ignorar essas imagens, ou por má consciência ou por ser mais cómodo.

Os jogos de vídeo banalizam e desdramatizam a morte. Cada personagem dispõe geralmente de várias «vidas», o que exclui qualquer fim fatal e definitivo. O inexorável não existe – seria muito difícil de aceitar – mas a sua ausência não permite a aprendizagem de um limite que não pode ser ignorado.

Mais uma vez, os adultos transmitem às crianças a sua própria apreensão da morte. Por exemplo, quando ouço pessoas que estão a viver um luto, espanto-me com o vocabulário por elas utilizado. Raramente falam de «morte», mas sim de desaparecimento ou perca. A palavra «morte» nunca é pronunciada ou então raramente. Diz-se que esta ou aquela pessoa «nos abandonou», ou ainda que se «retirou», que «partiu».

Na mesma ordem de ideias, vejo cada vez mais pais que pedem uma consulta para o filho – cuja idade varia geralmente entre cinco e dez anos –, o qual, segundo eles, fala frequentemente de morte. No espírito de determinados adultos passou a ser insuportável que as crianças possam utilizar um termo que eles já abandonaram. Vêem aí, rápida e facilmente, uma manifestação patológica e, consequentemente, um comportamento inquietante que justifica, aos seus olhos, uma ida ao psiquiatra.

De facto, quando uma criança sente que pronunciar a palavra «morte» é mal aceite pelos pais, até quase se transformar em provocação, ela tenderá a servir-se da palavra como arma de manipulação. Esta criança não está doentiamente obcecada pela morte, apenas utiliza um poder que lhe é dado pelos pais no medo que têm em afrontar, eles próprios, a existência da morte.

A criança tem necessidade de «conhecer» a morte, tal como lhe é necessário descobrir todas as declinações da vida; isso significa que tem necessidade de se confrontar com a realidade total. Geralmente, esta aprendizagem faz-se por volta dos seis, sete anos, ao mesmo tempo que conhece o tempo e, consequentemente, a duração. O finito e o infinito assumem então um sentido para a criança, ela integra a existência de um limite que deveria transformar-se no próprio exemplo de qualquer limite.

 

Confronto e mimetismo

 

As décadas de 1950 e 1960 foram caracterizadas pelo que se chamou “conflito de gerações”, ou seja, a vontade dos jovens em se … (continuação)


[1] As autoridades americanas tentaram evitar a todo o custo a difusão de imagens de cadáveres depois do ataque terrorista contra as Torres do World Trade Center, em Nova Iorque. Esses cadáveres estavam demasiado próximos, embora a foto de um recém-nascido africano, morto pela Sida, seja «politicamente correcta».

 

 

Confronto e mimetismo – Violência e impotência

Jacques-Antoine Malarewicz
O Complexo do Principezinho
Lisboa, Estrela Polar, 2007

(excertos adaptados)

Anterior: O Complexo do Principezinho – A negação da morte

Confronto e mimetismo

As décadas de 1950 e 1960 foram caracterizadas pelo que se chamou “conflito de gerações”, ou seja, a vontade dos jovens em se distanciarem dos mais velhos, rejeitando os seus valores e modelo de sociedade. Estes jovens procuravam alcançar a independência o mais rapidamente possível saindo do núcleo familiar; advogavam outros tipos de relação com os adultos, reivindicando mais respeito e liberdade. Não somente rejeitavam como exigiam. Nas décadas seguintes até aos nossos dias, as relações entre adultos e adolescentes evoluíram sensivelmente. O conflito entre gerações desapareceu totalmente e deu lugar a uma diversidade de tomadas de posição.

Numa grande maioria dos casos, os jovens procuram tirar proveito de um sistema que não rejeitam abertamente. Baseiam-se na confusão de gerações – que resulta de um mimetismo generalizado – onde adultos e adolescentes trocam as suas prerrogativas. As pressões mediáticas, económicas e, sobretudo, mercantis, favoreceram e aceleraram sensivelmente este primeiro fenómeno ao «venderem» “juventude” aos adultos e ilusões de autonomia e maturidade aos jovens.

Uma minoria de jovens, frequentemente bastante desfavorecida, manifesta uma rejeição total da sociedade sem que nenhum pedido de mudança a acompanhe. Aqui, o confronto é directo, destrutivo e sem esperança. Transmite a sensação de desembocar numa violência gratuita, como se nenhuma alternativa parecesse possível para estes jovens, a não ser “a lei dos mais fortes”. Já nem se trata de «ser contra», o que supõe uma intenção e uma capacidade de se projectar para além da violência; a oposição é desesperada e inscreve-se no momento.

A um nível mais profundo ainda, o confronto é sensivelmente deslocado para desaguar em novos pedidos. Quando agora reivindicam um mundo que corresponda à sua própria visão, os jovens exigem dos adultos que eles se conduzam apenas… como adultos. Nesse aspecto, agem como adultos, quer dizer, como os pais dos seus pais. É óbvio que este pedido não é directo, consciente e claro. Mas muitos comportamentos podem ser compreendidos nesse sentido, nem que seja por via das provocações de certas crianças, ao pai e à mãe, e que correspondem a uma procura de autoridade.

O conjunto oferece a sensação de uma grande confusão na distribuição dos papéis e, sobretudo, no lugar que os adultos querem ocupar perante as gerações que lhes vão suceder. O que domina é uma visão a muito curto prazo, uma «filosofia» do «quero, consequentemente faço-o» e uma submissão cega às leis da economia de mercado.

Violência e impotência

A questão da violência física coloca dois problemas difíceis de resolver. O primeiro é: os que a introduzem e põem em prática não a identificam como tal – são violentos porque não sabem o que é a violência. Ela resume, só por si, a sua relação com o mundo e com os outros, e é-lhes impossível compará-la a outras maneiras de actuar, para serem eles próprios a criticá-la.

O segundo problema é: a violência aberta de um induz uma outra, de natureza bem diferente porque perfeitamente interiorizada. De facto, é igualmente violento não saber como fazer frente à violência como o é vivê-la. Esta impotência é então tão manifesta que provoca um verdadeiro sentimento de paralisia.

Muito poucos indivíduos sabem comportar-se «eficazmente» perante a violência. Uma resposta eficaz situar-se-ia em qualquer parte onde houvesse a possibilidade de fazer «alguma coisa», sem se deixar necessariamente arrastar na escalada. Quando não se soube responder a uma agressão desta maneira, subsiste um sentimento de desconforto que pode ir da frustração à angústia profunda. A vítima sente, então e constantemente, a necessidade de reescrever na sua mente um cenário mais satisfatório, sem nunca o conseguir. Trata-se de imaginar que ser humilhado não é uma necessidade, ainda menos uma fatalidade. A violência subsiste então, não enquanto tal, mas na impotência que impõe.

As relações inter-humanas foram desde sempre marcadas pela violência. Mas ela passou a ser para nós cada vez mais insuportável, ao mesmo tempo porque tem a ver com crianças cada vez mais jovens, mas também porque vivemos numa sociedade que nos dá a ilusão da segurança. Como tudo pode ser compreendido, nada pode acontecer sem estar previsto.

Qualquer violência gera outra violência. Quer seja patente ou dissimulada, a reacção está presente. A própria impotência resolve-se, quando tem a oportunidade, por uma atitude por vezes próxima da vingança ou do acertar de contas. Salvaguardadas todas as proporções, seja através do boletim de voto ou do recurso à psicoterapia, o mecanismo de delegação é o mesmo. Com efeito, é tentador aderir às posições políticas extremistas para resolver, pela via da força, os problemas colocados por uma minoria de jovens, da mesma forma que certos pais imaginam, de bom grado, deixar todo o poder ao psicoterapeuta para trazer os seus filhos de volta à razão.

O sintoma «psi» de uma criança é sempre violento para os seus pais. Muitos preferiam confrontar-se com algo de concreto, palpável e racional. Estes pais vivem o facto de recorrer ao psicoterapeuta como um fracasso. São então obrigados a desvendar – poderia escrever confessar – a sua impotência e o seu reconhecimento; nesta situação, escondem mal a sua cólera.

As crianças tiranas

Quando as crianças não são apenas pequenos príncipes, quando se transformam, sem que para tal tenham necessidade de crescer, em reis que só olham para eles próprios, reinam sem partilha e impõem a violência aos que os cercam, e chegam ao ponto de se conduzirem como verdadeiros tiranos. Trata-se da manifestação (…) continuação

 

Anorexia e bulimia

Jacques-Antoine Malarewicz
O Complexo do Principezinho
Lisboa, Estrela Polar, 2007

(excertos adaptados)

Anterior: A bulimia ou a fusão total: (…) O sintoma de Julie garantia, de alguma forma, a ausência de mudança e o seu peso transformara-se na metáfora concreta do fardo derivado do conjunto da situação familiar.

 

Anorexia e bulimia

Um mesmo continuum percorre o caminho que separa a aparente oposição entre anorexia e bulimia. Trata-se de duas manifestações extremas e opostas de uma mesma ambição: a de controlar o outro e, consequentemente, as relações com o outro. Como acabamos de ver, os meios para lá chegar são diferentes.

A anoréctica aproxima-se da tentação mística para ordenar o mundo de acordo com o ascetismo da sua vida afectiva e sensorial. Dá a impressão que se encontra numa espécie de além, numa procura do impossível, sempre a caminhar para uma maior privação. Arrasta o outro para a vacuidade do seu desejo, dando a este outro a sensação de que a pode salvar do vazio, preenchendo-o com o seu amor. Mas a esperança de a poder ajudar é sempre defraudada. Ela ilustra perfeitamente o paradoxo de existir no apagamento e na ausência.

A bulímica está na invasão e na plenitude da carne. Ela capta o outro como capta a comida. Sabe envolver, manipular, adoptar e ingerir. Com ela, a fusão é inevitável, já que a sua generosidade é manifesta, pode ser mãe para cada um. Mas por detrás desta mãe esconde-se o desejo pela própria mãe. O seu sacrifício está bem escondido, o que a leva a abandonar o seu corpo para se envolver no da mãe.

Frequentemente, a adolescente percorre um caminho que se situa entre estas duas formas de exercício de poder. Por todas as razões que encontrámos nos exemplos clínicos, subsiste a necessidade de nos pormos no lugar dos pais, ou de um deles, com o objectivo de colocar uma certa estabilidade e lei na vida familiar.

Quando a adolescente fica esgotada com o controlo absoluto, deixa-se cair no relaxamento total. Mas os elos de dependência e de protecção mútua perduram, as preocupações dos pais são sempre vivazes. Seja na anorexia ou na bulimia, esta rapariga representa no seu corpo, nem que seja de forma metafórica, as trocas de prerrogativas entre adultos e adolescentes.

 

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A bulimia ou a fusão total – Julie no corpo da mãe

Jacques-Antoine Malarewicz
O Complexo do Principezinho
Lisboa, Estrela Polar, 2007

(excertos adaptados)

Anterior: A anorexia ou o último controlo ( … )  Os mecanismos de protecção são, nestes casos, notáveis: os conflitos são sistematicamente evitados e qualquer intrusão é geralmente muito mal aceite. Não é um terapeuta que pode pretender dizer-lhes o que devem fazer e ainda menos permitir-se julgar o comportamento deles.

 

A bulimia ou a fusão total

 

Com a bulimia e a obesidade, mudamos de registo. Já não se trata de um controlo absoluto e manifesto do corpo. Bem pelo contrário, é uma derrota total, uma demissão definitiva perante as múltiplas tentações que a abundância alimentar e o aumento do nível de vida permitem, o que conduz ao abandono de qualquer medida. Mas esta ausência de controlo pode apresentar algumas vantagens.

Como acontece com a anorexia, a bulimia diz respeito a nove mulheres por um homem, ou seja, 2 por cento da população feminina, entre a qual 6 por cento são estudantes. Cerca de 70 por cento das mulheres que sofrem de bulimia têm um peso normal. Fala-se de obesidade quando o peso ultrapassa 20 por cento daquele que corresponde, normalmente, à estatura do indivíduo. Em França, 10 por cento das crianças sofrem de obesidade, percentagem que duplicou nos últimos quinze anos. A Europa conta com 30 por cento de obesos e os Estados Unidos da América com 60 por cento. A obesidade corresponde, em número de pessoas, à primeira doença não contagiosa.

Ritmo de vida, ausência de actividades físicas, desestruturação das refeições, e por via disso a da vida familiar, abundância de açúcares rápidos e de componentes gordurosas numa alimentação pronta a comer, tempo passado perante a televisão ou ecrã de televisão e, inclusive, as incitações fiscais sobre a taxa do IVA, todos estes elementos encorajam o «trincar» contínuo e a instalação de maus hábitos alimentares nas crianças e nos adolescentes.

Provavelmente, mais do que a anorexia, factores genéticos predispõem a uma má gestão, através do metabolismo corporal, da massa gordurosa. Isso é claro em algumas famílias. O comportamento bulímico, que tem como consequência um aumento de peso importante, pode ser igualmente abordado sob o ângulo das relações intra-familiares.

De facto, da mesma forma que a anorexia coloca a questão da sexualidade e das relações com os homens em geral, e com o pai em particular, a bulimia remete para a ligação materna e para a nostalgia de uma fusão regressiva. Uma espécie de corpo-a-corpo que «solda» a mãe e a criança numa bolha, na mesma bolha!

Como em muitas relações humanas, esta fusão constitui-se numa cumplicidade escondida e tanto mais eficaz quanto é, geralmente, inconsciente. Cada um dos dois protagonistas tira vantagens de uma conciliação que se explica, também, tanto pela história familiar como pela história do casal ou, ainda, pela subtil alquimia que ocorre entre uma mãe e a sua filha.

A ligação com a anorexia pode ser estabelecida no controlo relacional que permite a bulimia e de que a mãe é aqui o objecto. Ainda aqui a pobreza da vida conjugal dos pais abre portas a esta possibilidade. A mãe está «ocupada» com o seu filho e, mais frequentemente ainda, com a sua filha, na medida em que o pai está ausente da vida afectiva da esposa. De novo, o poder da criança é exercido de forma inesperada e indirecta. Neste caso, na promiscuidade corporal e na regressão alimentar.

Na idade adulta, eventualmente para lá da adolescência, e apesar da distância geográfica, esta cumplicidade pode perdurar na repetição da mesma relação com os alimentos e com o corpo. Os alimentos tranquilizam e trazem instantaneamente o calor da saciedade e da satisfação rápida de uma necessidade fundamental. Comer e, sobretudo, «trincar», diminui e anestesia a angústia. A regressão é imediata e pode ser repetida e relançada incessantemente, tanto de dia como de noite.

O corpo é receptáculo, dispõe-se a ter um único amor, o da mãe, que qualquer um sabe ser inesgotável. O acesso a uma sexualidade adulta já não é necessário. Este amor tem a reputação de ser difícil de encontrar e, sobretudo, de salvaguardar. As gorduras, a amplidão e a espessura do corpo são uma protecção eficaz que afasta e desvia o olhar do outro sexo. O cordão umbilical nunca é pois cortado, até na intimidade das fantasias. Que o amor materno tenha sido efectivamente enorme ou, ao contrário, inexistente, o resultado é o mesmo. Trata-se ou de o reencontrar ou, então, de o encontrar numa alimentação permanente.

 

Julie no corpo da mãe

 

Julie tem 15 anos. Vem acompanhada pelo irmão mais velho, Stéphane, com 18 anos, e pelos pais. É a sua importante obesidade que motivou o pedido de primeira consulta: pesa noventa e cinco quilos e tem um metro e sessenta de altura. De facto, a situação familiar é mais complexa do que aparenta.

 

PAI (que toma imediatamente a palavra) — Quero precisar desde já que sou o padrasto, não sou o pai biológico de Julie e do seu irmão… As crianças tratam-me pelo meu nome, que é Pierre…

MÃE — Sim, é importante. O pai deles abandonou-nos por ocasião do nascimento de Julie, regressou inesperadamente a casa dos pais dele, situada a oitocentos quilómetros daqui… As crianças estão com ele duas ou três vezes por ano… nas férias… geralmente as coisas não se passam demasiado mal… ele tem outros dois filhos, que nunca vi, mas os meus conhecem-nos…

TERAPEUTA — A senhora voltou a casar?

MÃE — Não, não… mas de qualquer forma… também não estava casada da primeira vez… Pierre e eu vivemos em união de facto…

 

O afastamento do pai biológico influenciou certamente as relações entre as crianças e o padrasto. Simbolicamente, o facto de esta mulher e este homem não serem casados fragiliza a sua ligação. Também não têm filhos em comum. Tudo isso gera o risco de deixar um lugar demasiado amplo à nostalgia de um passado que se mitifica à medida que o tempo passa.

O comportamento não verbal de uns e outros faz com que eu pense que Pierre não deve ter sido facilmente adoptado, pelo menos pelas crianças e, talvez até pela própria mãe delas, apesar das aparências que pretendem dar. Este problema de obesidade oculta – ou manifesta – é mais lato e diz respeito a toda a família.

 

TERAPEUTA (dirigindo-se à mãe) — Como vê as relações entre Stéphane, Julie e o seu companheiro?

MÃE — Do meu ponto de vista, é uma boa parte do problema. Talvez não directamente o problema da Julie, mas o problema da família. De facto, as coisas passam-se menos mal entre Stéphane e Pierre e muito mal entre Julie e Pierre… Pode-se dizer que é a ignorância total… discuti frequentemente o assunto com o Pierre… mas há já tanto tempo que isso dura… estou bastante desencorajada…

TERAPEUTA — E entre os dois filhos?

MÃE — Stéphane vive no seu mundo com os amigos… ficam entre rapazes, o que faz com que quase nada partilhe com a irmã… é necessário dizer que os três anos de diferença de idade entre os dois os separam cada vez mais…

STÉPHANE — Seja como for, ela ainda brinca a maior parte do tempo com as bonecas e os ursos…

JULIE — E tu com o teu computador, o que não é melhor…

PIERRE — De qualquer forma, penso que as coisas tendem a melhorar entre a Julie e eu… claro, não é espectacular, mas estão melhor…

MÃE — És o único que acredita nisso…

 

Os laços familiares parecem ordenar-se mais de acordo com um eixo vertical do que numa hierarquia pais-filhos. Cada um dos filhos está muito mais próximo de um dos pais do que do outro. É por isso que existem nesta família dois lados: de um lado, as mulheres, do outro, os homens. Julie encontra-se «naturalmente» muito mais próxima da mãe do que do padrasto.

 

TERAPEUTA — E o senhor, como analisa as relações entre os filhos e a mãe?

PIERRE — De uma certa maneira, é quase o oposto. Direi que é quase «serviço mínimo» com Stéphane e… fusão total com a Julie…

MÃE — Estás a exagerar…

TERAPEUTA — Fusão total? Que quer dizer com isso?

PIERRE — Sim, é isso: fusão total… Vivemos juntos há quase quinze anos, já tive tempo suficiente para observar o que se passa entre as duas. Apetece-me dizer que entre as duas não existe espaço para uma agulha… Julie pensa com o cérebro da mãe e a mãe age através das reacções da filha…

 

Esta imagem descreve perfeitamente o que pode ser este tipo de ligação. Não é necessariamente físico, mas desenvolve-se ainda mais intimamente na sinergia dos modos de pensar e dos comportamentos que ordenam o quotidiano. Essa ligação constitui-se em detrimento de outras ligações.

TERAPEUTA — Qual é o seu lugar?

PIERRE — Em geral, na família?

TERAPEUTA — Sim, isso mesmo…

PIERRE — Difícil… difícil de chegar depois da saída do pai das crianças… o que posso compreender… Ficaram muito ligados a ele, apesar da distância…

TERAPEUTA — E tu, Stéphane, como analisas as coisas?

STÉPHANE — É como ele diz… De qualquer maneira, estou frequentemente fora de casa… com os amigos… não sei o que vim hoje aqui fazer…

TERAPEUTA — Não estás preocupado com a Julie?

STÉPHANE — É verdade que com o seu problema de peso… ela devia fazer dieta… quero dizer uma verdadeira dieta… que, por uma vez, respeite…

TERAPEUTA — Estás então preocupado com ela?

STÉPHANE — Sim…

 

A solidariedade entre irmão e irmã é bem ténue. A sua conivência resume-se à nostalgia daquilo que podia ter sido a vida deles com o pai biológico e ao ciúme que ambos sentem pelos dois outros filhos do pai. Tentei, sobretudo, aumentar essa conivência ao avistar-me com os dois durante uma dezena de sessões. Por razões diferentes, tanto Stéphane como a mãe foram muito reticentes. A mãe sentiu que corria o risco de um afastamento da filha, o irmão temia afastar-se dos amigos. Depois, reuni-me com os pais para os ajudar a construir novos projectos em comum, e também durante dez sessões.

Este tipo de trabalho pode ser longo, porque se trata de desfazer tudo o que se refere ao passado antes de construir o que pode constituir o futuro. O sintoma de Julie garantia, de alguma forma, a ausência de mudança e o seu peso transformara-se na metáfora concreta do fardo derivado do conjunto da situação familiar.

 

Anorexia e bulimia

Um mesmo continuum percorre o caminho que separa a aparente oposição entre anorexia e bulimia. Trata-se de (…)  continução 

 

A anorexia ou o último controlo – Aurélie

Jacques-Antoine Malarewicz
O Complexo do Principezinho
Lisboa, Estrela Polar, 2007

(excertos adaptados)

Anterior: Bernard ou como saber parar o tempo : (…)  A angústia de Bernard era proporcional à ligeireza do pai. Os aniversários passaram a ser mais importantes para esta família. Consequentemente, ele procurou parar a marcha do tempo, tanto para o pai, como para ele próprio e para o irmão.

A anorexia ou o último controlo

A anorexia mental e as suas consequências no quadro familiar são emblemáticas da tomada do poder que determinados adolescentes são capazes de desenvolver nas suas famílias e da submissão que os adultos podem mostrar em relação a eles.

Trata-se de uma síndroma que atinge preferencialmente os adolescentes – em 90 por cento dos casos. Ela associa três tipos de sintomas. O primeiro é um emagrecimento importante, ocasionado por uma privação voluntária de comida, por vezes acompanhada de vómitos provocados, ou da toma de laxativos e diuréticos. A actividade física, às vezes intensa, acaba por acelerar o processo. Para ser levada a sério no quadro de uma anorexia, esta perca de peso deve, pelo menos, ser de 15 por cento em relação à norma. Revela-se em seguida uma amenorreia secundária, ou seja, ausência do período depois de a adolescente estar normalmente menstruada. Os equilíbrios hormonais são, pois, profundamente perturbados e as repercussões atingem o conjunto das funções metabólicas.

Enfim, a ignorância obstinada da gravidade dos distúrbios físicos e psíquicos por parte dos interessados, e às vezes até da família, constitui uma verdadeira negação da realidade. Estas adolescentes escondem frequentemente a sua perca de peso debaixo da largura das suas roupas. Elas investem nos estudos, por vezes mais do que é razoável, sem no entanto atingir os resultados que o seu trabalho poderia permitir-lhes esperar.

Pensou-se durante muito tempo que esta síndroma era a consequência de um desequilíbrio hormonal; estas adolescentes eram frequentemente tratadas por pediatras que sentiam, e ainda sentem, muitas dificuldades em guiá-las para um psicoterapeuta ou um psiquiatra.

A anorexia mental sempre existiu, sob outros aspectos e denominações. Ela faz agora parte daquilo a que os médicos chamam distúrbios das condutas alimentares, que reagrupam igualmente a bulimia e a bulimia com vómitos. O número de casos diagnosticados aumenta sensivelmente e já vimos que esses distúrbios assumem um significado particular na nossa sociedade. É preciso igualmente ter em conta que os especialistas capazes de emitir estes diagnósticos e conduzir o tratamento são cada vez mais numerosos e que a oferta cria a procura.

Nos países ocidentais, a prevalência desta doença não está ligada a nenhum factor socioeconómico: todas as classes sociais são abrangidas. Os factores culturais, antes descritos, parecem determinantes. Assim, esta doença começa a aparecer nos países do Magreb com a ocidentalização da sociedade. A mortalidade é importante, considera-se geralmente que ela é de 10 por cento de casos em cada década.

Por outras palavras, quando os distúrbios se estendem por duas décadas, a mortalidade é da ordem dos 20 por cento. Trata-se, pois, de uma doença grave e os riscos de cronicidade são importantes. Em dez, ela abrange nove raparigas e um rapaz e perturba, frequentemente durante muitos anos, a vida escolar e social do adolescente e do adulto, ao mesmo tempo que perturba as relações familiares.

Aurélie

Trata-se do primeiro encontro com Aurélie e a sua família. Depois de várias hospitalizações, os pais acabaram por se resignar a pedir ajuda fora do quadro de qualquer situação urgente. Até lá, o recurso à medicina só se fez no limite extremo do emagrecimento de Aurélie. De cada vez, parecia evidente que o problema se resolvia por si próprio com um aumento do peso, que não era fruto da pressão clínica realizada durante a hospitalização.

Há três crianças nesta família. Aurélie é a mais velha, tem 17 anos e sofre, actualmente e de forma evidente, de um problema de anorexia mental. Tem duas irmãs mais novas, com 15 e 13 anos. Como acontece frequentemente, os pais sentem dificuldades em concordar no que toca a prioridades.

TERAPEUTA (dirigindo-se aos pais) — O que motivou o vosso pedido de consulta?

PAI — Pessoalmente, o que mais me preocupa é saber se a Aurélie vai poder reatar rapidamente os seus estudos… já se atrasou demasiado…

MÃE (virando-se para o marido) — Não creio que isso seja o mais importante… os estudos, isso virá depois. Para mim, tenho necessidade de receber conselhos do ponto de vista culinário, mais exactamente, tenho necessidade de saber se, de um ponto de vista clínico, um regime alimentar pode resolver este problema de peso… Tem de haver uma solução…

PAI — Tens razão… mas se ela retomasse os estudos, ela poderia de novo confiar nela… Tenho a certeza de que o problema da comida se vai resolver por si próprio… nessa altura… numa segunda fase. Que pensa disto, doutor?

É difícil para estes pais saírem de uma definição «sintomática» do caso da filha. Considerar que se trata de um problema escolar ou alimentar equivale a ignorar a dimensão relacional do seu comportamento. Deve ser velha a discordância entre eles no que toca à importância relativa dos estudos e da comida. Utilizam constantemente o mesmo cenário perante as filhas e perante o psicoterapeuta. Concordam em… não concordarem, embora apenas nos limites muito estreitos que definem estas implicações secundárias em relação à situação no seu todo. Dão a sensação de poderem tomar decisões, embora sabendo muito bem que é Aurélie quem manipula todos.

No final da consulta, uma outra foi marcada com toda a família, para três semanas mais tarde, a uma quarta-feira, ao princípio da noite. Todos se levantam e, quando aperto a mão à mãe para me despedir, Aurélie começa a falar de forma bastante dramática.

AURÉLIE — Não é possível!

MÃE — O que não é possível?

AURÉLIE (dirigindo-se aos pais ao mesmo tempo e com um tom de bastante desprezo)

— Enfim, apesar de… esqueceram-se? Será que vocês pensam um pouco?

PAI — Que queres dizer?

AURÉLIE — …

PAI — Responde!

MÃE — Escuta, Aurélie, se tens algo a dizer, diz e já, não podemos ficar especados aqui indefinidamente, o doutor tem provavelmente uma outra consulta… despacha-te…

AURÉLIE — …

PAI (dirigindo-se à mãe) — Deixa-a, neste caso nem vale a pena insistir…

MÃE — Gostaria apenas que ela me explicasse o que quer dizer (mais calma) —, diz-me…

AURÉLIE — Mas, enfim, não é possível, naquele dia, naquela noite…

MÃE — E porquê?

PAI — Sim, porquê?

AURÉLIE — …

PAI (começando a enervar-se) — Então, explica-te!

MÃE (dirigindo-se ao pai) — Não lhe fales assim!

PAI — Aurélie, não nos deixes assim… o que é que não é possível?

AURÉLIE (excedida) — O restaurante!

PAI — O restaurante?!

MÃE (em simultâneo) — Sim, tens razão… tinha-me esquecido (voltando-se para mim) — … É o nosso aniversário de casamento e nós há muito que fizemos uma reserva para essa noite. Aurélie tem toda a razão, é preciso encontrar uma outra data. Lamento!

Os pais tinham-se esquecido, um e outro, que o dia da próxima consulta era igualmente o dia do seu aniversário de casamento e que há muito se tinham já comprometido para essa noite. Aurélie lembrou-se quando, logicamente, isso devia primeiramente dizer respeito aos pais. Mas, neste tipo de família, os laços conjugais passam frequentemente para segundo plano perante o elo pais-filhos, o que pode explicar esta «anomalia».

Apesar disso, ainda não tinha chegado ao fim das minhas surpresas. Com efeito, os pais tinham reservado uma mesa num restaurante, não somente para eles, o que era normal, mas também para uma terceira pessoa: Aurélie. Pareceu-lhes ser evidente que não a podiam deixar sozinha em casa, tendo em conta os problemas alimentares. Ela corria o risco de nada comer na ausência dos pais. Preferiram levá-la com eles, sem que isso parecesse afectá-los, dado os conhecidos problemas de Aurélie. Assumiam o risco, mais que provável, de ficar sem apetite perante a visão da filha a contemplar, no meio do seu prato, três rodelas de cenoura misturadas com dois salsifis. A festa seria cruel!

Aurélie instalou-se, pois, solidamente, no centro de todas as preocupações familiares, até num momento simbólico da história do casal constituído pelos seus progenitores. As suas duas irmãs estão totalmente afastadas das preocupações dos pais. Elas não têm o direito de reivindicar seja o que for, e, como é óbvio, deixaram de existir.

A irmã mais velha assumiu o poder; neste caso porque é, ao mesmo tempo, a única a lembrar-se do que é importante na vida familiar e, também, porque focaliza as preocupações dos pais como se fosse filha única. Os laços protectores de que beneficia são tão poderosos que os pais aceitam sacrificar-se por ela, abandonando qualquer intimidade e mesmo todo o prazer que poderiam ter em estar sós por ocasião do seu aniversário de casamento.

Perante tal situação, é sempre preferível não mostrar espanto. É preciso compreender bem que tudo isso parece não apenas ser evidente para este tipo de famílias, como também necessário e útil. Elas são catalogadas de «engrenadas», o que significa que cada membro está estreitamente ligado ao outro como duas rodas dentadas, uma em contacto com a outra. Quando um elemento se mexe, os outros reagem imediatamente. Os mecanismos de protecção são, nestes casos, notáveis: os conflitos são sistematicamente evitados e qualquer intrusão é geralmente muito mal aceite. Não é um terapeuta que pode pretender dizer-lhes o que devem fazer e ainda menos permitir-se julgar o comportamento deles.

A bulimia ou a fusão total

Com a bulimia e a obesidade, mudamos de registo. Já não se trata de um controlo absoluto e manifesto do corpo. Bem pelo contrário, … (continua)