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Violência familiar – violência psicológica

19 Set

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  • A violência das feridas familiares

    Desde que me lembro, os meus pais nunca acharam que eu era uma pessoa interessante e não se privavam de o repetir vezes sem conta diante de mim. Davam-me sempre como exemplo os filhos dos outros, que eles achavam mais inteligentes, mais amáveis, mais sorridentes. De cada vez que tinha uma nota má, suspiravam e perguntavam-se, em voz alta, o que iria ser de mim. Cresci com a convicção de que os outros são melhores do que eu. Hoje, quando tenho um projecto que me é caro, sinto sempre uma imensa angústia por pensar que não serei capaz de o concretizar.

    Artur, 16 anos

    É proibido existir

    Subreptícia e perigosa, a violência psicológica exprime-se através de agressões verbais (insultos, troça), de desvalorizações sistemáticas, de castigos injustos, de humilhações face a outras crianças. Estas humilhações podem ser relativas à aparência, ao físico, às capacidades intelectuais. “És muito gordo”, “És uma nulidade”, “Pareces os teu pai, sempre mal vestido”, “Nunca serás ninguém na vida”, “És uma cabra, como a tua mãe”. Todas estas frases ferem as crianças, destroem a sua auto-confiança.

    O mesmo acontece com os comportamentos de desprezo, indiferença, ou abandono. A criança que os pais ignoram, ao ponto de falar dela como se não estivesse presente, é vítima de violência psicológica. De igual modo, a rapariga espiada e vigiada pelo pai, como se fosse uma criminosa, sofre as consequências deste tipo surdo de violência. Muitas relações familiares baseiam-se no silêncio, ou numa relação de força, em humilhações constantes, no desprezo. O sofrimento que a criança experimenta é uma violência real, porque esta violência esmaga a criança sob o peso da incompreensão. Como não consegue encontrar o seu lugar no seio da família, a criança sente-se confusa e tenta autodestruir-se. Não consegue reagir nem organizar os seus pensamentos. Não consegue existir, pura e simplesmente.

    Mas a violência psicológica também se pode exprimir através de uma grande doçura. A chantagem afectiva permite ao adulto impor vontades ou proibições à criança “para seu bem”, ou porque “isso faz muito mal”. “Se não vieres comigo às compras, já não gosto mais de ti”, diz uma mãe ao filho. Nada melhor para culpabilizar uma criança insegura que se acha em risco de perder o amor dos pais a qualquer momento.

    Todas estas formas de violência psicológica revelam sempre uma impotência. Um pai ou uma mãe que humilham o filho ou o chantageiam negam-se a si mesmos enquanto pais.

    Como reagir à violência psicológica?

    A literatura está cheia de histórias de crianças que tiveram maus começos na vida porque os pais não reconheceram o seu valor. Cenourinha , a personagem de um romance de Jules Renard, é um rapazinho constantemente humilhado pela mãe, porque teve a infelicidade de nascer com o cabelo ruivo. Reduzida a sua importância à cor dos cabelos, a Cenourinha é negado o estatuto de pessoa rica e complexa, já que não passa de uma cor, de um legume! Como poderá ele gostar de si mesmo, aceitar-se, descobrir e desenvolver as qualidades pessoais, uma vez que a própria mãe lhas nega? Esta rejeição constitui uma violência absoluta, porque nega à criança o direito de existir como é. “Nem toda a gente tem a sorte de nascer órfão!”, lamenta-se Cenourinha. Reparem como ele exprime o desejo da morte da mãe com humor. Só uma personagem de romance pode rir-se do facto de não ser suficientemente amada.

    E, contudo, o amor é libertador, porque permite brincar com as emoções e os pensamentos proibidos. Aquele que se ri de si mesmo fá-lo para evitar sentir a queimadura da vergonha ou a mordedura da culpa. O humor impede-nos de deixar os nossos sofrimentos crescerem em silêncio, o que nos minaria.

    A criança constrói-se a partir do amor que os seus lhe votam. Aquele que não se sente suficientemente amado pensa não valer nada. Logo, não pode amar-se nem construir a sua identidade. A fim de evitar que este sofrimento lhe destrua a alma, inventa um subterfúgio.

    Alguns recorrem ao humor, outros ao ódio. Alguns fechar-se-ão a toda e qualquer demonstração de carinho, enquanto outros apostarão nos estudos ou mergulharão na criação artística. Outros autodestruir-se-ão. Mas nós, adolescentes, ao contrário das crianças muito pequenas vítimas dos pais, começamos a observar o que se passa na nossa família com um certo recuo. Podemos compreender o drama que os nossos pais vivem através dos seus gestos e comportamentos perigosos.

    Via a minha mãe chorar todas as noites. Acordava com os olhos vermelhos e a cara inchada. Como podia eu dizer-lhe que abafava ao viver em casa? Como dizer-lhe que estava farta de que ela me apertasse nos seus braços como se eu fosse uma criança? Sentia que ela precisava de me ver como uma criança para se sentir reconfortada. Mas eu estava a crescer e ela envelhecia. Não podia dizer-lhe que queria crescer, porque isso a fazia envelhecer.

    Estela, 18 anos

    Estela mostra-nos como a mãe a envolve no seu drama pessoal. É um tipo de violência surda e frequente que dá ao jovem a sensação de não existir.

     Segue:

  • Violência física
  • Violências sexuais
  • O que fazer quando sou vítima de uma violação?
  • A repetição das violências sofridas não é uma fatalidade
  • Violência escolar: violências das palavras e dos golpes
  • Outras formas de perseguição / Conclusão
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